Análise: AlphaGo (2017) – vamos falar sobre I.A.?

Acho extremamente importante tentar fundamentar um debate honesto, sem ilusões nem romantizações sobre a questão do desenvolvimento da Inteligência Artificial.

Apesar da ideia de máquinas inteligentes não ser algo inventado no nosso século. A noção de inteligência artificial como um campo de estudo é algo que podemos localizar no tempo e se trata de um campo com pouco mais de 60 anos.

Ainda vou falar bastante sobre a história do desenvolvimento da I.A. pois é um tópico por si só fascinante e ao mesmo tempo explicita muitas das noções e debates que se fazem presentes no estado atual da ciência.

Mas o blog não é sobre linguística computacional? Qual a relação entre as duas áreas?

A dupla linguística computacional/ processamento de linguagem natural é uma área do campo da inteligência artificial. Colocando em termos muito simples e ligeiros nessa nossa primeira aproximação: uma máquina só é considerada inteligente (o objetivo da Inteligência Artificial) se for capaz de entender e produzir linguagem natural humana (o objetivo do processamento de linguagem natural).

Voltando para a questão em mãos: está disponível na Netflix o documentário AlphaGo, lançado em setembro de 2017, que trata de uma das histórias mais impressionantes envolvendo tecnologia que aconteceram nos últimos tempos: a partida do jogo de tabuleiro Go entre um computador e o melhor jogador humano, o coreano Lee Sedol.

Antes de tudo, recomendo o documentário, pois cobre a história dando algum tratamento sobre os aspectos técnicos envolvidos ao mesmo tempo que traz os dramas humanos presentes. É interessante mesmo que você não saiba nada sobre Go ou sobre inteligência artificial.

Nota: caso por um acaso você não saiba o resultado das partidas e queira ver o filme com alguma expectativa, deixa para ler o resto do texto depois!

Eis alguns pontos que o documentário trata que merecem alguma atenção:

Jogos como uma ferramenta para compreender inteligência.

Existe uma tradição forte no campo da inteligência artificial em escolher jogos como uma área de aplicação e teste de algoritmos inteligentes, desde antes do surgimento da computação a ideia de máquinas que fossem capazes de competir contra humanos já estavam presentes.

Em específico, o jogo de xadrez, talvez pelo simbolismo de ser um jogo de demonstração de habilidade de raciocínio, foi explorado em diversas ocasiões. Dentre as pessoas que tentaram propor por nomes importantes do início do desenvolvimento da computação moderna, como Allan Turing e Claude Shannon, mas talvez um dos grandes ápices dessa história seja o do computador Deep Blue, que em 1997 venceu uma série de melhor de seis partidas contra o então melhor enxadrista humano, Garry Kasparov.

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Kasparov contra Deep Blue

Mas por que o fascínio em criar máquinas que joguem?

Claro que existe uma certa carga simbólica em uma inteligência artificial vencer um humano em um jogo justo, no qual ambos estão sujeitos as mesmas regras. Mas existe também uma razão bastante prática para escolhermos jogos.

A própria definição de jogo é o que o torna tão útil para esse fim. Um jogo tem que ser bem definido por um conjunto de regras não ambíguas que determinam os turnos, aquilo que é permitido fazer e por fim, as regras determinam também as condições necessárias para a vitória.

Com isso temos dois aspectos excelentes para trabalhar com o desenvolvimento de novos programas: em primeiro lugar, um programa só funciona direito se estiver obedecendo as regras do jogo. Além disso, podemos dizer que se o programa é bom ou ruim no jogo dependendo do seu desempenho em termos de vitórias/derrotas!

Como um bônus, podemos comparar a habilidade do programa com a de humanos naquele domínio específico.

Por fim, ainda existe um outro excelente motivo para usarmos jogos: o tipo de raciocínio utilizado em um jogo de xadrez é útil para diversas outras situações práticas, nas mais variadas áreas, portanto um programa que se comporte de forma sobre-humana no jogo pode se comportar de forma igualmente impressionante em uma outra aplicação.

Domínio específico vs. Domínio geral

Toquei involuntariamente nesse tópico, mas acho que é um ponto muito importante para discutir IA.

O Deep Blue joga xadrez melhor do que qualquer humano. O AlphaGo joga Go melhor do que qualquer humano. No entanto, um humano joga xadrez melhor do que o AlphaGo e joga Go melhor do que o Deep Blue.

Para além do divertido jogo de palavras, meu ponto é que a inteligência humana não está atrelada a um domínio específico, ao passo que a inteligência artificial tal como ela ainda existe é.

Na verdade o Deep Blue e o AlphaGo tem uma diferença fundamental neste aspecto. O Deep Blue não consegue aprender Go, o AlphaGo precisou de algumas modificações, mas em questão de horas aprendeu a jogar xadrez melhor que o Deep Blue.

Um dos grandes pontos de empolgação com o desenvolvimento da inteligência artificial nos últimos anos é que o tipo de algoritmo por trás do AlphaGo, que usa redes neurais profundas, parece ser plástico o suficiente para aprender diferentes tipos de conjuntos de regras e como vencer usando essas regras, de modo análogo aos seres com inteligência de domínio geral como os humanos.

Claro, esse aprendizado exige uma grande quantidade de exemplos, muitos mais do que qualquer ser humano tem acesso, mas que o feito é impressionante, isso é.

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“Vamos ver se o AlphaGo é tudo isso”

Visão sistêmica não-humana

Por fim, um ponto impressionante que o documentário mostra é o movimento 37 da segunda partida entre humano e computador.

Todos os especialistas assistindo, assim como a própria equipe responsável pelo AlphaGo acharam a jogada uma coisa completamente sem sentido, um erro amador.

No entanto, o programa ganhou essa partida.

Não só isso como aquela jogada esdrúxula acabou servindo mais adiante no jogo e, apesar de não fazer sentido exatamente naquele momento, ao levar em conta um contexto mais amplo do que nós rotineiramente levamos, a jogada foi na verdade uma excelente sacada.

Nesse ponto é interessante refletir sobre o que aconteceu ali. A jogada foi bizarra ou foi genial? Por que na hora ninguém soube julgar isso?

Acho que essa linha de questionamento mostra bem como não temos nenhum tipo de preparo para lidar com inteligências não-humanas. O programa, ao invés de ser genial ou não, foi profundamente não humano. A visão que esse algoritmo tem do jogo é claramente diferente da visão que mesmo o mais hábil dos humanos tem.

Um dos aspectos mais fascinantes de mexer com a área de inteligencia artificial está justamente nesses pequenos momentos em que se vislumbra uma capacidade não-humana de fazer algo que nós consideramos inteligente, só que de uma forma de inteligência que não é nossa.

O jogador pode ter uma estratégia definida e a previsão das próximas rodadas, mas o algoritmo tem uma visão extremamente mais ampla e mais sistêmica do jogo.

O escritor Isaac Asimov escreveu um conto no livro “eu, robô” que mostra robôs que tem um pensamento sistêmico tão fino e tão abstrato que apenas gerando um pequeno erro num relatório econômico de uma determinada região, conseguem desmantelar toda uma conspiração antirrobôs.

 

Sem surpresas em Asimov prever algo praticamente inimaginável na sua época, mas continua sendo fascinante de um jeito profundamente atual. O tipo de inteligência que começa e emergir com as novas tecnologias é ao mesmo tempo fascinante e inédito, é fundamental refletirmos sobre o significado deste tipo de desenvolvimento.

 

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